Não é difícil perceber, com tudo que já foi exposto, a profunda consonância
do chamado "Rock
' n roll" e a visão Pós-moderna de
mundo. O Rock nada mais é do que a música de uma cultura pós-moderna,
onde não existem regras e cada um busca se "soltar" ao máximo.
Deve-se, como já foi exposto, buscar uma maior interação com
a música, que em última análise, também faz parte da energia primeira
e ajudaria a sintonizar com o "Absoluto". Os instintos do homem devem
ser "soltos" e satisfeitos, deve-se "viver o momento".
O Pós-moderno deve convencer, através das sensações, que a
racionalidade é desnecessária, falsa e secundária, pois cria normas
que delimitam a sensibilidade.
Um exemplo típico do rock pós-moderno é
Woodstock,
um show realizado para as sensações do homem e onde o que importa
é viver o "momento", sem se preocupar com o amanhã (nem com a existência
de algo "superior ou inferior ao homem"), um show arquétipo da Pós-modernidade.
A)
"Mudville": A Reedição de Woodstock
Mudville (cidade da lama):
palavra preferida da imprensa americana para definir a fazenda Winston.
"O mar de lama que marcou o final de semana na fazenda Winston não
foi suficiente para diminuir a felicidade das 350 mil pessoas que
passaram pela cidade de Suagerties para acompanhar o festival
Woodstock 94.
O maior concerto da história do rock em número de ingressos vendidos
(190 mil) teve sexo, drogas e até uma histórica guerra de lama entre
artistas e público. (...)
"O ecletismo dos shows,
tão criticado pela mídia americana, foi a cara de uma era sem cara.
Na verdade, os meninos e meninas que acamparam na fazenda Winston
curtiram desde o bucolismo de Crosby, Stills & Nash até o som
urgente e violento do Nine Inch Nails."
"Se há um ponto onde de fato o Loolapalloza [nome do festival Woodstock
94] não encontra paralelos com nenhum festival é na liberdade de expressão
dos movimentos sociais organizados. No estande em prol da legalização
da maconha, por exemplo, cigarros
de Marijuana foram distribuídos gratuitamente. Tudo
a menos de 500 metros do posto policial
instalado dentro do Downing Stadium.
(...)
O mais procurado dos brinquedos
é o chamaleon, duas gôndolas que giram sem parar em cabines fechadas.
Do lado de dentro, imagens projetadas passam a sensação de uma batalha
interplanetária no mais autêntico espírito da realidade virtual".
"A lama, o lixo produzido por 300 mil pessoas e a chuva constante
mataram o sonho de Woodstock e transformaram a fazenda Winston, local
que abrigou até ontem o festival, em um verdadeiro caos. (...)
Mas a grande parte do público
não parecia se incomodar com os problemas e a atmosfera de paz e amor
fez muita gente tirar a roupa como em 69. A
fabricação de cigarros artesanais de maconha foi o passatempo predileto
do público, que levou a sério o antigo slogam "sexo, drogas e
rock ' n ' roll '."
Por outro lado, "Os
ideais de paz & amor ficaram em 1969. Vinte e cinco anos depois
a reedição do festival de Woodstock, que começou ontem na cidade americana
de Saugerties, tem uma dupla mais preocupante nas cabeças de dezenas
de milhares de pessoas acampadas na fazenda de Winston. A preocupação
com o meio-ambiente e com a Aids domina a juventude dos anos 90, e
os hippies não chegam em massa como no primeiro evento."
"(...) A mística do festival
de 1969, entretanto, não foi reeditada. Se há 25 anos músicos e público
tinham idéias e objetivos em comum, nos anos 90 a diversidade do pensamento
da juventude, egressa do consumismo yuppie dos anos 80 e da falta
de perspectivas da década de 70, inviabilizou a atmosfera de união
que simbolizou o primeiro Woodstock".
A reedição do festival
de Woodstock,
ao mesmo tempo em que reafirma a proposta revolucionária de 1969,
traz algumas surpresas. A Revolução começa a dar sinais de confusão
na mesma medida em que alcança o seu apogeu. Por assim dizer, o caos
só prospera na medida em que tenha uma ordem interna que o faça progredir.
Quando o progresso da anti-ordem chega a um tal grau que ele se auto-desorganiza,
atinge seu apogeu e, paradoxalmente, sua destruição.
Um fenômeno inteiramente
novo consiste em que a atual juventude é, em muitos pontos, mais conservadora
do que a de 1969. Como será demonstrado na última parte deste trabalho,
existe uma sensível reação tradicionalista à Revolução.
B) A Evolução do Rock:
do "Blues" ao Ocultismo
Será esclarecedor montar um quadro sobre a evolução da Pós-modernidade,
em todo o seu caráter místico, de acordo com o desenvolvimento do
rock ao longo deste século .
A história do rock
está intimamente ligada às práticas religiosas e musicais da África.
Quando os escravos negros foram levados para a América, conservaram
muitos costumes praticados durante séculos no seu continente de origem.
Com freqüência fugiam à noite, para os bosques e selvas, a fim de
praticar seus rituais religiosos ao som dos tambores.
Para controlar esses
rituais, o Município de Nova Orleans, no sul dos Estados Unidos, proibiu
em 1817 a reunião dos escravos fora de um lugar chamado Congo Souare.
A música popular dos negros, conhecida como "Blues",
segundo conta a história do rock, nasceu no "Congo
Souare"
Espalhando-se pelos
grandes centros industriais, o "blues" evoluiu, nos anos 40, para
algo mais tenso, áspero e estridente chamado rhythm
'n blues, vulgarmente conhecido como
jazz.
Depois da sua vitória
na segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos entraram num período
de prosperidade como nenhum povo tinha visto. O bem estar material
convidava ao relaxamento dos costumes, à busca de novas sensações
e à ânsia do prazer imediato.
No fim dos anos
40 aparece o
"boogie", um novo estilo
de tocar piano. Esse ritmo predispunha o corpo do ouvinte ao movimento
e foi a base do "beat" do rock'n roll. (Beat é uma palavra inglesa
que significa compasso.)
Em 1954 surge o filme "Blackoard Jungle" com a música "rock
around the clock", cantada por
Bill Halley.
O rock'n roll é uma combinação do "rhythm'n' blues" com o "country
western", unidos ao novo beat. Foi o radialista Alan Freed, de
Ohio, quem popularizou o termo rock'n roll , expressão usada num blues
de Robert Johnson, nos anos 20, como sinônimo de fornicação.
Nessa primeira onda
do rock aparece Elvis Aharon Presley, que
"devolveu ao novo ritmo a sensualidade que Haley tinha tirado com
seu ridículo pega-rapaz e a batida burocrática. Elvis mexia as cadeiras
como um possesso. Orgasmos [sic] dos fãs acompanhavam cada movimento
de sua pelvis".
Elvis Presley é conhecido
como o rei do Rock 'n roll. No seu curto apogeu, foi venerado, teve
legiões de fãs até o fim da vida e até depois de morto. Para muitos
foi quase um Deus ou, como comenta O Globo:
"Nova York - Para muitos
fãs, Elvis Presley não apenas não morreu, como também virou Deus.
Literalmente. Acaba de ser criada nos Estados Unidos a igreja
presbiteriana do divino Elvis, consagrada
à devoção do rei do rock, morto em 1977.
Os fundadores da igreja, Karl Edwards e Mort Farndu, afirma terem
sido ordenados padres pelo próprio Elvis. Eles se dizem à espera de
milagres e de mensagens do cantor. Até o fim do ano de 1999, pretendem
lançar "o evangelho segundo Elvis ".
Entre os deveres dos fiéis
da igreja presbiteriana do divino Elvis estão rezar uma vez por dia
virado [sic] em direção a Las Vegas e se alimentar de comidas sagradas
como carne picada e pudim de bananas, os pratos prediletos do rei
do rock. O lugar sagrado dos seguidores da nova religião é Graceland,
a mansão onde o cantor vivia em Memphis, no Tennesse."
A década ainda teria
nomes como Litle Richard, Jerry Lee
Lewis, Chuck Berry, Buddy Holly, etc.
Na década seguinte,
uma nova onda inundou o mundo a partir da Inglaterra. São os Beatles.
Camisa e gravata, maneiras discretas, cantando um rock moderado, quase
ingênuo. Evitavam, no princípio, qualquer polêmica moral ou religiosa.
Posteriormente, já
em uma visita aos Estados Unidos, que culminou no Ed Sullivan Show
(que tinha apresentado Elvis Presley).
|
John
Lenon declarou ao "Eveninn Standard",
de
Londres a sua conhecida frase:
"A
Cristandade vai se encolher, evaporar,
desaparecer.
Hoje em dia somos mais
populares
que Jesus Cristo". |
Outro grupo surgia na mesma época, portando-se desde o começo de forma
contestatária e irreverente, no estilo de Elvis Presley. Em contraste
com os Beatles, os Rolling Stones faziam
músicas o mais anti-social possível.
Nos anos 60 milhares
de jovens convenceram-se de que o mundo tinha chegado à aurora de
uma nova era. Acreditavam tratar-se de um novo começo para
a história da humanidade, baseado na completa rejeição dos valores
tradicionais, desde a moral até a religião. Cabelo comprido, indumentária
extravagante e uma filosofia permissivista. Era o movimento de contra-cultura
hippie, que chegou ao auge
em Woodstock.
Pouco depois, em Maio de 68, estala em Paris um movimento de estudantes
cujo lema "É proibido proibir", expressa a realidade do que
é muito mais do que uma simples revolta estudantil. Uma verdadeira
revolução anárquica e libertária espalha-se da França para o mundo
inteiro.
O objetivo do rock
não era só contestar a sociedade burguesa. Já tinha levantado ídolos
e juntado fiéis. Era preciso fazer agora uma experiência mística e
transcendental. Esta experiência foram-na buscar, primeiramente, no
mundo das drogas.
Assim como nos anos
50 os temas do rock giravam à volta da velocidade e do sexo, nos anos
60 começaram a falar das drogas: Lucy
in the Sky with Diamonds (LSD), Magical Mystery Tour, Stranberry fields
forever, Yellow Submarine, etc.
Mas além das drogas,
a música rock começou a descobrir as religiões esotéricas.
O grupo californiano "Gratefull Dead", por exemplo,
conhecido vulgarmente como o conjunto do rock ácido, durante os seus
concorridos concertos, tentava chegar, através da droga, a este mundo
misterioso.
Os Dead, comenta
a revista "Musicien", "são capazes
de atuar como canais para uma forma especial de energia, que pode
transformar uma representação comum num fato transcendental".
O vazio religioso
da música rock do começo dos anos 60 estava a ser substituído, no
fim da década, por uma espiritualidade esotérica. Na canção "Tomorrow Never Knows",
os Beatles evocam o círculo budista da reencarnação.
A esta canção iam chamar "O Vazio",
pois tinha sido inspirada nas leituras feitas por John Lenon, sob
o efeito da droga, dos livros dos mortos do Tibete.
A letra diz:
"Desliga a tua mente, descontrai-te e flutua na corrente, não é
o morrer, abandone todos os pensamentos, entrega-te ao vazio, está
brilhando, está brilhando, para que possas ver o sentido do interior,
sendo, sendo."
Em 1967, os Beatles,
e alguns amigos mais íntimos, incluindo Mick
Jagger dos Rolling Stones, inscreveram-se
num curso de Meditação, durante 10 dias, dado pelo guru Maharish Mahesh
Yogi, em Gales.
George
Harrison freqüentava o ambiente Krishna,
de Londres, onde escreveu a canção "My
Sweet Lord". Jimmy
Hendrix compôs, por sua vez,
"Voodoo Child".
Jimmy Page, do grupo
"Led Zeppelin",
estava fascinado pela vida e obra do mestre do ocultismo e praticante
de magia negra, Aleister Crowley,
que morreu em 1947, chegando ao extremo de comprar a casa do bruxo
situada ao lado do lago Ness, na Escócia.
O grupo Led
Zeppelin foi especialmente acusado
de colocar mensagens ocultas em seus discos, que só poderiam ser escutados
quando se ouvisse a música no sentido inverso (Backward Masking).
O primeiro disco a incluir
esta técnica de linguagem ao revés foi o álbum branco, dos Beatles,
na música "Number Nine", uma estranha melodia onde John Lenon
repete o tempo todo: "number nine, number nine..."; ao contrário entende-se
claramente: turn me on dead man... que quer dizer: tocai-me, homem morto..."
As referências satânicas
nem sempre estão ocultas. Os primeiros a ostentá-las foram os
Rolling Stones, no álbum
"Beguer's Banquet" com a
musica "Simpatia pelo Demônio". Ao som de um tam-tam africano,
de uivos e gemidos, Mick Jagger canta:
"permita-me que me apresente. Sou um homem de riqueza e bom
gosto. Estou aqui há muito tempo. Roubei a alma e a fé a muitos homens.
Estive perto quando Jesus Cristo teve os seus momentos de dúvida e
dor. E assegurei-me de que Pilatos lavasse as suas mãos e decidisse
o seu destino. Encantado em conhecer-te. Espero que adivinhe o meu
nome. Mas o que te preocupa é a natureza do meu jogo. Assim como todo
policial é um criminoso, e todos os pecadores santos. Como cara e
coroa é a mesma coisa, chamo-me apenas Lúcifer".
Na última apresentação dos Rolling
Stones no Brasil, no Hollywood Rock/95,
em São Paulo, as manchetes de praticamente todos os jornais trouxeram
expressões como:
"Pacto
com o demônio", "Demônio da Música", "Simpatia pelo demônio", "Flertando
com o diabo", "São Paulo venera o demo", "estive no inferno e voltei",
"demônio da música", "os Stones estão mesmo possuídos", "pacto com
as entidades do vodu" , etc...
No fim da década
de 70, a revolução do rock dava sinais de estar chegando ao fim dos
seus últimos desdobramentos. Depois do "Heavy
metal rock",
apareceu a onda "punk".
Casacos sujos e rasgados,
camisas esburacadas, cabelos cortados de uma forma extravagante e
pintado de cores berrantes, alfinetes atravessando as orelhas, os
lábios e as bochechas, coleiras, correntes, etc. A revolta contra
toda indumentária. Palavras ininteligíveis gritadas aos microfones
e instrumentos tocados o mais rápida e furiosamente possível.
Máquinas de gelo
seco, efeitos luminosos, som ensurdecedor, temas satânicos, etc, tudo
forma um ambiente propício para a contestação. Até naqueles que não
tomam a sério as invocações satanistas, o horror em relação a Lúcifer
(que existia até há algumas décadas), desaparece. Uma autêntica transformação
se vai operando.
É o que mostra André
Forastieri, editor da revista "General", em artigo para a Folha
de São Paulo:
"(...)Bandidagem, satanismo, militância, drogas, promiscuidade,
viadagem - tudo que antes dos Stones queimava a fita de qualquer um,
depois dos Stones se tornou obrigatório para todo candidato a rockstar.(...)".
Já é amplamente sabido que
Ozzy Osbourne, ex-cantor
principal do Black Sabbath, foi iniciado em ritos ocultistas na própria
mansão escocesa do ocultista Aleister Crowley, que agora pertence
a Jimmy Page.
Outra referência
satânica se encontra na música "Highway
to Hell" (auto-estrada
para o inferno), do grupo AC/DC,
onde Bon Scott canta:
"... Estou na auto-estrada para o inferno. Não há sinais para parar,
nem limite de velocidade. (...) Satanás, estou a pagar as minhas dívidas,
tocando num conjunto de rock (...)".
Outra das suas canções
mais conhecidas é "Sinos
do Inferno".
A letra diz:
"És ainda jovem, mas vais morrer; (...) Satanás agarra-te; sinos
do inferno, sim, sinos do inferno; dei-vos emoções que percorrem a
vossa espinha; se estás no mal, és meu amigo".
Ao analisar a evolução
do Rock, ao longo dos últimos trinta anos, não é difícil constatar
a presença crescente do ocultismo num grande número de conjuntos.
Na década de 50, o objetivo era provocar entre os jovens uma revolta
sócio-política generalizada contra o "stablishment", e contra todos
os valores e princípios tradicionais. No começo dos anos 70, esta
revolta tomou ares religiosos e conotações culturais, começando a
aparecer referências ao satanismo. Desde então, o ocultismo foi se
manifestando cada vez mais no movimento rock.
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